A percepção e o sensível: notas sobre o funcionamento perceptivo e a questão da mudança.

 

 

Autor: Yuri C. Vilarinho

Publicado originalmente em: Pensamento Reichiano em Revista, 2009.

 

 

 

RESUMO

 

Muitos pontos teóricos podem ser articulados entre a filosofia de Henri Bergson e a teoria de Wilhelm Reich, ainda que ambos tenham partido de arcabouços teóricos distintos. Acreditamos que ao forjarmos um diálogo entre ambos os pensadores, conceitos importantes de ambas as teorias podem ser mutuamente enriquecidos. O presente artigo discute a relação entre as duas abordagens sobre a percepção da mudança.

 

Palavras-chave: percepção; intuição; pensamento funcional; filosofia bergsoniana.

 

INTRODUÇÃO: A investigação da interface entre a teoria reichiana e a filosofia de Henri Bergson não é inédita. Recentemente, alguns autores (ALBERTINI, 1994, 2003, BEDANI, 2007) enfatizaram a interessante afinidade entre as contribuições do filósofo francês e de Wilhelm Reich. Vale lembrar que Bergson exerceu grande influência no pensamento de Reich quando este ainda cursava a faculdade de medicina, em fins dos anos 1910. Reich era então considerado um “bergsoniano maluco” (REICH, 2004). Sua teoria da identidade e unidade do funcionamento psicofísico, ou seja, da relação funcional entre corpo e mente, tem origem no pensamento bergsoniano2. Cada um dos autores, ao seu modo, partindo de arcabouços teóricos diferentes, formulou questões muito semelhantes, como o problema da rigidez do homem e as implicações na percepção da realidade, a relação mente-corpo, a existência de um éter, a crítica do materialismo mecanicista predominantes na ciência e na filosofia da época. Embora haja vários pontos em comum entre ambas as teorias, focaremos neste estudo a questão da percepção da mudança.

 

Henri Bergson, laureado com o prêmio Nobel em 1927, trouxe uma importante contribuição à filosofia, desenvolvendo seu pensamento em contraposição ao campo filosófico hegemônico de sua época, moldado no racionalismo cartesiano. Escreveu do final do século XIX até a década de 1930. Sua obra atravessou um século e ainda corrobora muitas questões discutidas na contemporaneidade. Bergson desenvolveu vários conceitos importantes, tais como o de duração, memória, élan vital e de intuição. Da mesma forma que na teoria reichiana, tratada mais à frente, a questão da percepção assume um lugar central na obra de Bergson. Tanto a concepção de Bergson como a de Reich são muito próprias e estão relacionadas a uma percepção sensível capaz de captar o movimento das coisas. Desta forma, antes de iniciarmos a discussão de como os dois concebem esta faculdade, faz-se necessária uma breve consideração a respeito de como é colocado o problema da mudança na filosofia.

 

 

 

 

 

 

A PERCEPÇÃO DA MUDANÇA: ENTRE O SENSÍVEL E A MENTE, ENTRE O CORPO E A RAZÃO

 

O conceito de movimento tem sido analisado por pensadores e provocado discussões filosóficas por muitos séculos. Para Bergson, a origem da filosofia estaria na insuficiência das faculdades do homem de perceber a mudança das coisas:

 

Se os sentidos e a consciência tivessem um alcance ilimitado, se, na dupla direção da matéria e do espírito, a faculdade de perceber fosse indefinida, não precisaríamos conceber nem tampouco raciocinar. Conceber é um paliativo quando não é dado perceber, e o raciocínio é feito para colmatar os vazios da percepção ou para estender seu alcance (BERGSON, [1934] 2006:151)

 

Entre os primeiros filósofos gregos predominava a idéia de uma eterna mudança na Natureza. Tentava-se mostrar, a partir de um ou outro princípio primário, que todas as formas do ser observadas no mundo surgiriam em decorrência de certas transformações de tais substâncias. Assim, diante do problema do que realmente existe, poderia se responder água, como em Tales de Mileto, ou ar, como defendeu Anaxímenes. De forma geral, cada filósofo defendia a idéia do movimento, que seria expresso através das transformações de uma substância primária.

 

Dentre as contribuições filosóficas que viam no movimento a base do ser, merece destaque a filosofia de Heráclito. A noção de que a natureza das coisas está eternamente mudando foi particularmente clara em sua filosofia, antecipando uma série de questões surgidas na contemporaneidade.

 

É Heráclito o responsável por proclamar o fato de que todas as coisas ao nosso redor estão constantemente mudando. Segundo ele, é impossível vermos uma coisa duas vezes da mesma forma, pois, se por um lado, a própria coisa está se transformando a cada momento, nós mesmos deixamos de ser o que éramos ao vê-la numa segunda ocasião. Quando examinamos o mundo realmente com olhos imparciais, é impossível ignorar o eterno fluir, o verdadeiro devir da realidade. Contudo, esta concepção profunda da essência mesma da Natureza será combatida por muitas escolas posteriores, sendo somente resgatada com força na filosofia moderna de Bergson. Como veremos mais adiante, a concepção de um ser não estático, será corroborada por Reich ao longo de sua obra.

 

Já nos primórdios da filosofia, surgiram concepções que combatiam a noção de um mundo mutável. A escola de Eléia, por exemplo, fundada por Parmênides, criticou a idéia de transformação, sustentando a impossibilidade de nos mantermos tão próximos dos dados dos sentidos. Segundo Morente (1967), a filosofia de Parmênides ganha maior sentido quando confrontada com a filosofia de Heráclito É em contraposição direta a esta que o pensamento de Parmênides se desenvolve e amadurece.

 

A filosofia parmenídica foi tão poderosa que mudou por completo a história da filosofia, marcando o pensamento filosófico no qual permanecemos até hoje. A própria noção enraizada no pensamento ocidental de uma dicotomia mente-corpo, presente na filosofia e na psicologia, tem as suas raízes na filosofia de Parmênides, há 25 séculos. Segundo Parmênides, há uma contradição lógica na resposta dada por Heráclito a respeito do que seria o ser. Analisando a noção de devir, da mudança, Parmênides sustenta, a partir do raciocínio, que o registro sensível e a conseqüente percepção da mutabilidade das coisas conduzem-nos inevitavelmente ao erro. De forma muito resumida, pode-se dizer que, a partir deste ponto, a filosofia embrenhou-se na via pela qual caminhou desde então: aquela que conduzia a um mundo “supra-sensível”. Era, portanto, através das “puras idéias” que o mundo devia ser explicado.

 

Platão diz que não é pelo registro da experiência sensível que chegamos ao conhecimento verdadeiro, episteme. No capítulo 7 de A República, vamos encontrar o recurso alegórico do mito da caverna. A realidade, neste mito, é aquilo que participa do real, mas não é o real. Essa busca pela verdade é marcada pela neutralidade, ou seja, saímos do registro sensível à medida que chegamos ao plano das idéias, da pura essência. Isso é o que vai constituir a matriz do racionalismo.

 

O pensamento racionalista traz embutido o idealismo das formas puras. Com isso, perdemos o toque, o cheiro, a libido, justamente aquilo que compõe e constitui o mundano, o mundo das coisas. Pode-se dizer, neste sentido, que o racionalismo instalou a neutralidade sensorial. Esta maneira de pensar atravessará toda a Idade Grega, chegando a Descartes (e também a Spinoza, Leibniz e Hegel), instaurando de vez, na modernidade, o racionalismo. O racionalismo parece à primeira vista um descaminho, mas na verdade é a busca pelas verdades universais que são aquilo que não comove a corporeidade. Quanto mais se mergulha na experiência puramente sensível, mais tocamos naquilo que nos é mais subjetivo. Vemos, portanto, na filosofia, dos antigos aos modernos, uma substituição do percepto pelo conceito. Todos estes filósofos, de uma forma ou de outra, mostram como nossa consciência e nossos sentidos são insuficientes, apelando às faculdades de abstração, de generalização ou de raciocínio.

 

 

O PLANO SENSÍVEL NA EXPERIÊNCIA

 

A separação mecânica entre o eixo vertical, da racionalidade, e o horizontal, do registro sensível, foi modificada na entrada do século XX. O velho cogito cartesiano foi abalado em seus alicerces. Em âmbito clínico, foi Freud o responsável por misturar estes dois eixos. Se na filosofia existem dois eixos principais, separados, na psicanálise eles se encontram juntos. Assim, o arcabouço conceitual da psicanálise ora é marcado pelo mundo platônico, pois opera na verticalidade, procurando a verdade conceitual, ora (enquanto prática clínica) atua na horizontalidade, operando naquilo que é mais subjetivo, nos erros, nos tropeços, no esquecimento, ou nos sonhos, nos sintomas, etc. A psicanálise, freudiana, desta forma, tanto é constituída pela verticalidade como pelo que existe de mais horizontal, no plano sensível. Entretanto, não estaríamos enganados se disséssemos que uma psicanálise pós-freudiana se desencaminhou da idéia original, já que aos poucos foi eliminando o afeto e o corpo de sua clínica, concentrando cada vez mais a atenção na racionalização e na interpretação. Progressivamente, esta psicanálise resgatou o velho erro parmenídico-cartesiano da cisão e do antagonismo entre mente e corpo. É fato: a experiência sensível foi relegada ao segundo plano em favor da análise do discurso, da linguagem. De volta ao cogito cartesiano.

 

Por outro lado, ainda em âmbito clínico, foi Reich o responsável por trazer de volta o plano sensível da experiência. É possível pensarmos na clínica reichiana como um sinto logo sou, pois se toca ainda mais naquilo que atenta para o sensível, para o corpo. Este literalmente entra em cena, deixando de ser um mero coadjuvante no processo analítico do indivíduo. O corpo, materialmente, e não meramente simbólico, entra em cena, adquirindo extrema importância nos relatos, no processo de elaboração psíquica, ab-reações, choros, risos, etc. As marcas da vida, na cena reichiana, se evidenciam não somente através da fala, do discurso que pode ser compreendido e analisado, mas também, e muitas vezes principalmente, nos traços, gestos e marcas corporais. O corpo não está excluído. Não apenas coabita, mas participa ativamente da cena analítica.

 

 

CONSIDERAÇÕES SOBRE A FUNÇÃO DA PERCEPÇÃO NA TEORIA REICHIANA

 

A questão da percepção esteve sempre presente nos esforços intelectuais de Reich. É possível dizer que o entendimento sobre os processos perceptivos assumiram um lugar central em toda a sua trajetória teórica. A própria noção de contato, sem dúvida considerada um ponto central na teoria reichiana, passa pela questão do funcionamento da percepção. O entendimento da percepção passou por transformações e aprimoramentos ao longo do tempo. Segundo Konia (1984), as contribuições sobre esta função podem ser divididas em três fases principais: a primeira, psicanalítica, uma segunda, após a descoberta de uma energia especificamente biológica, e a última fase, a partir dos estudos sobre a energia orgone cósmica.

 

Nos anos 1920, em Viena, a partir de sua experiência clínica psicanalítica, Reich descobriu o fenômeno do encouraçamento, chegando à compreensão de que cada fenômeno psíquico está acompanhado de uma determinada excitação somática. Reich elaborou suas primeiras formulações sobre a relação psicossomática a partir de uma identidade funcional entre a função psíquica da percepção (subjetiva) e a função corporal (objetiva), as quais, em 1934, ele comprovou com base estritamente experimental, mensurando as excitações bioelétricas da superfície da pele. Nos anos 1940, esta compreensão serviu de base para formular suas equações funcionais.

 

Por volta de 1939, Reich descobriu uma base física subjacente às funções psíquicas e somáticas. A descoberta de uma energia especificamente biológica foi um grande avanço para a elucidação do enigma da percepção. Deste modo, Reich mostrou que os processos somáticos e psicológicos eram funcionalmente idênticos e possuíam, em comum, uma raiz única (princípio comum de funcionamento), a energia orgone biológica. Neste mesmo período, estudando o processo esquizofrênico, Reich postulou que a base desta doença tinha relação com uma profunda cisão entre a função da percepção e a excitação bioenergética corporal. Reich descobriu que esta cisão tinha a sua origem, principalmente, no encouraçamento interno profundo de 1º segmento. Assim, tanto os processos perceptivos quanto o fluxo de energia no corpo estão preservados, embora haja uma forte dissociação entre ambos. A associação dessas duas funções, segundo Reich, é responsável pelo fenômeno do contato. Este, por sua vez, pode ocorrer tanto dentro do organismo (auto-percepção) quanto fora (percepção do ambiente). Uma das suas últimas contribuições ao estudo da percepção prende-se ao problema de como o homem está enraizado na natureza e à origem da função da percepção a partir de um processo energético primário. Esse período coincide aproximadamente com a primeira formulação de Reich da equação orgonômica, por volta de 1947.

 

No capítulo VIII, “O enraizamento da razão na natureza” de “A Superposição Cósmica”, Reich sustenta que as funções superiores do sistema vital, como o intelecto e o raciocínio, emergem a partir do funcionamento básico da energia dentro do sistema orgonótico. Reich pressupõe que, num organismo desencouraçado, há uma harmonia entre as correntes bioenergéticas e a função intelectual. Não há oposição, mas uma colaboração mútua, uma relação de causalidade recíproca entre as diferentes funções, onde o bom funcionamento de um requer a fluidez do outro.

 

Resumidamente falando, Reich afirma que ao longo da história, ocorreram processos encadeados seqüencialmente que deram origem à função da percepção nos animais superiores. Desta forma, o desenvolvimento do homem pode ser explicado em termos de fluxos de energia integrados um ao outro e surgidos um do outro: a) fluxo de energia cósmica; b) fluxo confinado dentro das membranas; c) sensação de correntes orgonóticas; d) percepção do fluxo em si: autoconsciência.

 

 

A PERCEPÇÃO E A MUDANÇA

 

No mesmo movimento de resgate do plano sensível da experiência do indivíduo, encontra-se a filosofia bergsoniana. Enquanto a metafísica clássica vai no sentido da invariância, da estabilidade do ser, Bergson trilha um caminho oposto, valorizando a idéia de mudança nas coisas, estendendo-a à própria ontologia do ser. O ser é duração, mudança, variação. O ser é a própria mutação, variabilidade temporal. Além de apostar na variação no âmago do ser, Bergson resgata a concepção heraclitiana do fluir da realidade, vista como a “lei fundamental da vida”. Numa série de conferências proferidas na Universidade de Oxford, em 1911, ele se dedicará, exclusivamente, a tratar do problema da mudança. Segundo ele, caso as pessoas se convencessem de sua realidade e se esforçassem para resgatá-la, as coisas se simplificariam: “determinadas dificuldades filosóficas, cujas soluções parecem ser intransponíveis, simplesmente desapareceriam” (BERGSON [1911] 2006:150).

 

Na filosofia de Bergson, vemos um elogio à percepção e à variabilidade. A faculdade de percepção, quando dilatada, seria capaz de perceber a mudança e a duração. Assim, a incapacidade humana de perceber a mudança e de comportar-se e pensar de forma livre é fruto de uma rigidez mecânica não só do corpo como de seu pensamento. Em “O Riso”, estudo escrito em 1899, Bergson enfatiza que a comicidade do homem está diretamente relacionada à sua incapacidade de agir em uníssono com o continuum da vida, que pulsa, que dura. Aqui, a noção de rigidez assume o mesmo sentido que na teoria de Reich.

 

Um homem, correndo pela rua, tropeça e cai: os transeuntes riem. Não ririam dele, acredito, se fosse possível supor que de repente lhe deu na veneta de sentar-se no chão. Riem porque ele se sentou no chão involuntariamente. Portanto, não é a sua mudança brusca de atitude que provoca o riso, é o que há de involuntário na mudança, é o mau jeito...Teria sido preciso mudar o passo ou contornar o obstáculo. Mas, por falta de flexibilidade, por distração ou obstinação do corpo, por um efeito de rigidez ou de velocidade adquirida, os músculos continuaram realizando o mesmo movimento quando as circunstâncias exigiam outra coisa (...) O hábito imprimira um impulso. Teria sido preciso deter o movimento ou desviá-lo. Mas qual nada: continuou-se maquinalmente em linha reta. (BERGSON, [1899] 2007:7 – grifos meus)

 

Mais a frente Bergson conclui: “O que há de risível num caso e noutro é certa rigidez mecânica quando seria de se esperar a maleabilidade atenta e a flexibilidade vívida de uma pessoa.” (ibidem: 8) Assim, a dificuldade de uma pessoa de se adaptar ao fluxo da vida, seria conseqüência de sua rigidez corporal-mental, que a incapacitaria de perceber a mudança. A própria noção de couraça, vista em outro livro de Bergson, “A Evolução Criadora”, assume o mesmo sentido proposto por Reich. Curiosamente, ainda em “O Riso”, o filósofo confere um tom de comicidade ao encouraçamento do homem:

 

Há rostos que parecem ocupados a chorar o tempo todo; outros, a rir ou a assobiar; outros a assoprar eternamente uma trombeta imaginária. São os mais cômicos de todos. Também aí se verifica a lei segundo a qual o efeito é mais cômico quando podemos explicar de modo mais natural a sua causa. Automatismo, rigidez, vezo contraído e mantido: aí está por que uma fisionomia nos faz rir. (Ibidem:19)

 

Outro ponto importante na filosofia de Bergson, fundamental na compreensão da percepção da mudança, é o conceito de intuição. Bergson dá um estatuto de seriedade ao conceito de intuição, distinguindo-o do senso comum. No senso-comum, a intuição pode ser entendida como algo místico, transcendente, ou uma espécie de afeto premonitório. No entanto, para Bergson, intuição seria um método de conhecimento tão rigoroso quanto o método da inteligência.

 

Bergson diz que a intuição seria uma espécie de experiência que nos possibilitaria perceber as coisas diretamente, sem mediações. Contrapõem-se, portanto, intuição e inteligência, as duas faculdades através das quais podemos conhecer as coisas. Pela inteligência, percebemos o mundo através de representações construídas, ou seja, percorremos um “caminho” já percorrido e ficamos impossibilitados de entrar em contato com a variância das coisas. Assim, podemos nos relacionar com as coisas por presença (intuição) ou por representações mentais e conceitos (inteligência). O modo de entrarmos em contato direto, sem mediações, com as coisas do mundo, difere muito da maneira habitual de vivermos. Há uma diferença grande entre a percepção cotidiana, da vida prática, e a percepção voltada para mergulhar nos objetos e conhecê-los direta e profundamente.

 

A concepção bergsoniana de intuição é sensível, não devendo ser entendida num sentido kantiano (intuição intelectual). Para muitos filósofos pós-kantianos, a filosofia é uma teoria do conhecimento. Fala-se sobre o conhecimento do mundo e não sobre o mundo em si, devido à impossibilidade de conhecê-lo diretamente. Caberia, então, à ciência falar sobre o mundo. Existe aí uma cisão entre o ser e o conhecer. Na verdade, Kant propõe o fim da metafísica, separando bem o campo filosófico do científico. Bergson vai criticar justamente esta cisão. Segundo ele, a filosofia é mais que uma teoria do conhecimento, ela é também uma ontologia, uma filosofia do ser.

 

Como Bergson, Reich enfatizou muitas vezes a relevância de um método de conhecimento além de uma faculdade meramente intelectual. É possível estabelecermos relações entre a intuição bergsoniana e o método do pensamento funcional, cujo valor da sensação é de extrema importância. Da mesma forma que Bergson propunha uma intuição capaz de separar os verdadeiros dos falsos problemas, Reich afirma que “a sensação de órgão não conduz a ciência natural mecanicista à solução dos enigmas verdadeiramente importantes da natureza.” (REICH [1951] 1992:108) Intuição e sensação de órgão seriam faculdades imanentes, deste mundo, capazes de sondar a realidade das coisas. Dentro da teoria reichiana é válido, neste sentido, falarmos de uma sensação intuitiva, assim como na filosofia de Bergson falamos de uma intuição sensível.

 

Nos últimos anos de sua vida, Reich se dedicou a desenvolver um método de pensamento próprio, que ficou conhecido como funcionalismo orgonômico ou pensamento funcional. Fugiria aos objetivos deste trabalho explicações detalhadas acerca deste método. No âmbito desta discussão, basta dizer que o pensamento funcional é um método capaz de apreender a complexidade da Natureza. Em vários escritos sobre o funcionalismo orgonômico, sobretudo na década de 1950, Reich enfatiza o fato de que o mecanicismo, presente nas ciências, é decorrente de uma percepção mecânica do mundo. A própria idéia de um mundo estático, de uma imutabilidade presente na natureza, seria produto da rigidez do próprio observador.

 

Assim como nas proposições de Bergson, a teoria reichiana não aceita a idéia de uma realidade estática. Ao contrário, está na base do pensamento reichiano a noção de uma realidade energética em movimento. Como escreve Reich:

 

O pensamento funcional não tolera nenhuma condição estática. Para ele, todos os processos naturais estão em movimento, mesmo no caso de estruturas enrijecidas e formas imóveis. É precisamente essa mobilidade e incerteza em seu pensar, esse fluxo constante, que coloca o observador em contato com o processo da natureza. O termo “em fluxo” ou “fluente” é válido, sem qualificações, para as percepções sensoriais do cientista observando a natureza. O que está vivo não conhece condições estáticas de qualquer ordem, a menos que esteja sujeito à imobilização devido à couraça. A natureza também “flui” em cada uma de suas diferentes funções, bem como na sua totalidade. A natureza também não conhece condições estáticas de qualquer ordem. (Ibidem: 107)

 

A proposta da não-linearidade do mundo (incluindo os organismos biológicos e as estruturas aparentemente imóveis) não é exclusividade de Reich. Na verdade, não só remonta às contribuições de sistemas antigos de pensamento, como o taoísmo e o hinduísmo, como se apóia em muitos achados recentes da ciência, como a teoria quântica da realidade, proposta inicialmente na década de 1920 e, mais recentemente, a concernente aos sistemas biológicos, as concepções de Fritz Popp e Prigogine, formuladas na década de 1970. Ainda a guisa de ilustração, conforme afirma Ho (1996), pode-se dizer o mesmo de Bergson, no que se refere aos achados recentes da ciência. Reich, ao se referir à ciência natural, afirma que uma

 

[D]e suas maiores dificuldades metodológicas reside no fato de que, embora tenha que descrever funções objetivas da natureza, nenhum julgamento é independente da percepção sensorial individual, e a percepção sensorial pertence ao sistema subjetivo do cientista. Espera-se que ele seja “objetivo”, apesar de jamais conseguir se libertar do ponto de vista subjetivo (REICH, 1951, 2005:46).

 

Segundo o pensamento funcional, a estrutura do observador não seria neutra no estudo de uma determinada função da natureza. Não há a possibilidade de se excluir a estrutura caracterológica do observador de seu estudo. Reich enfatiza a importância de este estar atento ao mau funcionamento de seu aparelho biopsíquico, que poderia levá-lo a uma distorção da realidade. Por exemplo, seguindo este raciocínio, um cientista ávido por um “perfeccionismo”, ao não se dar conta deste fato, procuraria enxergar da mesma forma um perfeccionismo na Natureza. Assim, Reich enfatiza que o mecanicismo da ciência decorre de uma percepção mecanicista da vida. As abstrações teóricas que um pesquisador faz estão intimamente ligadas à função de percepção, que, por sua vez, está enraizada em suas funções bioenergéticas, podendo variar qualitativamente, de acordo com o seu grau de encouraçamento.

 

Bergson e Reich apontam para a possibilidade de um alargamento da percepção. Segue-se, conseqüentemente, o questionamento de quais seriam os fatores que impedem, ou dificultam a nossa capacidade de dilatar a percepção. Cada um dos dois responde esta questão a seu modo, mas enfatizam em comum a rigidez do homem como possível entrave a este estado de contato e consciência. Bergson enfatiza o fato de que a vida prática, burocrática, contribui para este aprisionamento do homem:

 

De fato, não seria difícil mostrar que, quanto mais estamos preocupados em viver, tanto menos estamos inclinados a contemplar, e que as necessidades da ação tendem a limitar o campo da visão. Não posso entrar na demonstração desse ponto; considero que muitas questões psicológicas e psicofisiológicas seriam iluminadas por uma nova luz caso reconhecêssemos que a percepção distinta é simplesmente recortada, pelas necessidades da vida prática, num conjunto mais vasto. (BERGSON [1934] 2006b:157)

 

A percepção de um indivíduo sofre influência não somente de seus aspectos psicológicos, biopsíquicos, mas também de certa disponibilidade, uma certa abertura à experiência que este tem com o mundo. Perceber a mudança, então, mais do que se relacionar com um grau de encouraçamento ou não, implica num colocar entre parênteses as preocupações cotidianas, os interesses pessoais, a fim de que o mundo possa ter o total privilégio de nossa presença.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Diante da discussão feita acima, caberia perguntarmos o quanto estamos longe da capacidade de perceber-olhar com olhos de criança para o mundo. Dentro da teoria reichiana, esta discussão assume uma conotação própria, já que a percepção distorcida de um indivíduo se relaciona com as alterações funcionais de determinados padrões caracterológico-biofísicos de um indivíduo. Neste sentido, durante o período de distorção perceptiva, nos encontramos diante de um mundo distorcido, longe do real, mais atenuado ou mais intenso, mais agressivo ou mais dócil, mais rígido ou mais mole, mais tolerável ou nada tolerável. No que se refere especificamente à ação terapêutica reichiana, é possível melhorar o estado psicofísico de uma pessoa. Contudo, poderíamos levar esta discussão a outro âmbito, talvez um pouco mais abrangente. Gostaríamos de levantar alguns outros questionamentos: o quanto perdemos desta capacidade e o que poderemos fazer para recuperá-la. Será a terapia individual, então, realmente um meio para chegarmos a este fim? A pessoa mudou, seu caráter mudou, seu padrão biofísico mudou, sua percepção mudou, mas, em meio à vida numa sociedade como a nossa, que valoriza cada vez mais o egoísmo, a praticidade, a pressa, o consumo, quais são as saídas que podemos seguir no intuito de conseguir perceber as coisas como elas são? De que forma o hábito e a percepção prática da vida embotada de que Bergson tanto falou, impedem uma percepção mais apurada das coisas? Antes mesmo de chegarmos a quaisquer conclusões, caberiam as seguintes perguntas: seria inútil pensarmos nas implicações desta discussão em nossa vida cotidiana? Seria forçoso dizer que nossa rigidez forma um gigantesco entrave em nossas relações? E, no âmbito clínico, quais seriam as implicações na análise, ou as conseqüências de uma visão congelada de um analista sobre um determinado traço de seu paciente? Se o paciente realmente tinha tal traço, caso ele mude, o que acontece? A visão do analista acompanha a mudança? Seriam em vão os esforços de encarar as relações entre a nossa rigidez e uma subjetividade coletiva cada vez mais enraizada num auto-centramento? Acreditamos que não. E os esforços de Reich em explicar como os fatores subjetivos individuais estão enraizados numa estrutura social? Caberiam nesta discussão? A percepção da mudança em um sentido mais amplo passa pela questão da alteridade, do Outro, pela flexibilidade e possibilidade de aceitar a essência mesma de nós mesmos e do mundo, a mudança profunda (e não aparente, superficial), o que vai de

encontro ao atributo central de uma sociedade mesma encouraçada e narcísica.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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1 Artigo publicado em “Pensamento Reichiano em Revista, 2009, vol.3

 

2 Em 1942 ele escreve: “A minha atual teoria da identidade e da unidade do funcionamento psicofísico teve a sua origem no pensamento bersoniano, e se tornou uma nova teoria da relação funcional entre o corpo e a mente” (REICH, 2004:30). É preciso observar ainda que a concepção de Reich sobre o problema mente-corpo foi fortemente influenciada também pelo materialismo-dialético. Ver Materialismo dialético e psicanálise (REICH [1929] 1977)