A superação do modelo cartesiano na teoria reichiana

 

Autor: Yuri C. Vilarinho.

Publicado primeiramente em: Psiquiatria Multinível.

A estrutura teórica formulada por Reich foi construída com base na teoria psicanalítica freudiana. Existiram rupturas, embora o cerne da teoria psicanalítica tenha sido mantido.

 

Foi justamente a partir de sua experiência clínica como psicanalista e de sua reflexão sobre os limites da técnica da época que sua concepção de corpo emergiu. Sua concepção não veio do éter, mas foi paulatinamente construída, com todos os erros e acertos que fazem parte de qualquer pesquisa científica.


Assim, a contribuição mais importante de Reich foi a descoberta do fenômeno que ele chamou de encouraçamento. Ele percebeu que toda manifestação neurótica era acompanhada por algum tipo de disfunção corporal, isto é, era concomitante a alguma perturbação ocorrida ao nível fisiológico, hormonal, metabólico, postural etc.

 

 

Ele percebeu isso a partir de vários tipos de caráter que apareciam em seu consultório. Toda esta teoria está muito bem exposta em seu livro “Análise do Caráter”, publicado em 1933, que na verdade, originalmente, foi uma coletânea de artigos publicados por Reich ao longo da década de 1920 e início dos anos 1930 e escritos com base no material clínico discutido no conhecido Seminário Técnico Psicanalítico de Viena, do qual ele foi nomeado diretor por Freud em 1924 (quando tinha 27 anos).


Reich percebeu que diversos pacientes, durante o trabalho de associação livre, pareciam “querer dizer” algo com o corpo. Isto é, queriam passar uma mensagem muitas vezes distinta do conteúdo que apresentavam em sua fala ao terapeuta. Reich percebeu que eles falavam bem de seus pais ou de uma determinada pessoa, mas que mantinham a mandíbula rígida durante a sessão, ou faziam movimentações expressivas e estereotipadas com as mãos ou com os pés.

 

Reich prestou atenção a uma série de sinais clínicos que não necessariamente restringiam-se ao conteúdo, mas que faziam parte da estrutura de caráter do paciente, e que eram manifestados principalmente a partir da forma como o paciente se comportava diante do terapeuta. Com a técnica da análise do caráter, isto é, da análise da forma como o paciente se comportava com o analista, Reich percebeu que aqueles pacientes difíceis ou os pacientes que tinham dificuldade para fazer o processo de elaboração durante o trabalho terapêutico, passaram a ter uma melhora significativa.


Ele percebeu que era comum em todos estes pacientes um bloqueio crônico da respiração, especificamente da capacidade de expiração, de soltar o ar, bloqueio este que Reich percebeu como sendo a marca central de toda neurose. Na medida em que ficou claro que a instalação da couraça corporal (manifestada visivelmente através de músculos retesados, principalmente) servia para conter impulsos libidinais e emoções, Reich passou a trabalhar com técnicas que iam além do trabalho verbal, incluindo, no manejo clínico, trabalhos que mobilizassem estas regiões rígidas.

 

Sua técnica terapêutica facilitava a descarga da energia pulsional ligada às couraças e simultaneamente a elaboração de conteúdos ansiogênicos reprimidos e associados a sua formação. A rigor, passou a ficar cada vez mais claro que a não dissolução da couraça poderia, no limite, propiciar a racionalização dos sintomas e/ou as situações infantis conflituosas que lhes deram origem, mas que, sem o trabalho de mobilização das couraças, o objetivo central da análise, isto é, o de elaboração psíquica, não seria alcançado.


Para Reich, portanto, corpo e mente, ainda que pudessem ser distinguidos fenomenicamente, não poderiam ser considerados entidades separadas. A rigor, não poderiam ser considerados entidades ontológicas distintas na medida em que constituíam-se em manifestações funcionais de uma mesma unidade biopsíquica. Em dois de seus artigos, “Contato psíquico e correntes vegetativas” e “A cisão esquizofrênica” (incluídos atualmente no livro “Análise do Caráter”), ele investiga de que forma como corpo e mente podem estar “separados”, chegando à conclusão de que tal cisão corpo-mente existe, mas somente enquanto perturbações graves deste organismo biopsíquico.

 

Aliás, biopsíquicosocial, não havendo superioridade de uma dimensão sobre outra, mas uma relação complexa de causalidades recíprocas. Em outros termos, a cisão entre processos mentais e corporais poderia existir, mas somente, em maior ou menor grau, enquanto consequência da instalação de certas perturbações neuróticas e psicóticas, e como consequência específica da instalação de uma couraça localizada no 1º segmento, que engloba os olhos e o cérebro, e que, por sua vez, é instalada a partir de experiências traumáticas ou de experiências ansiogênicas crônicas da vida do indivíduo.


Resumidamente, enfim, no modelo reichiano o ser humano pode ser dividido apenas didadicamente nestas duas dimensões, que constituem um par funcional inter-atuante e que mantem uma relação de causalidade simultânea e recíproca. Detalhes sobre este assunto podem ser encontrados em seu livro “Éter, Deus e o Diabo”, nos dois artigos mencionados, e em outros escritos sobre o “Funcionalismo Orgonômico”.