Objetivos da psicoterapia reichiana e a questão da cura

 

Autor: Yuri C. Vilarinho.

Publicado primeiramente em: Psiquiatria Multinível

 

Enquanto diretor do Seminário Técnico Psicanalítico, em Viena, nos anos 1920, a principal preocupação de Reich era com os resultados concretos obtidos com a técnica psicanalítica.

 

Reich expõe detalhes deste assunto no livro “Reich fala de Freud”, livro que é fruto de uma entrevista dada ao psicanalista Kurt Eissler, funcionário dos “Arquivos Sigmund Freud”, ocorrida em outubro de 1952.

 

Reich se questionava quanto aos métodos clínicos utilizados pelos psicanalistas das gerações anteriores, que, nas reuniões, frequentemente evitavam entrar nos detalhes do modo como aplicavam o conhecimento teórico psicanalítico, como também evitavam entrar nas discussões acerca da real eficácia de seus tratamentos.

 

Foi rompendo com toda uma tradição que já se encontrava rígida na época, que Reich inventou a sua própria maneira de tratar os seus pacientes. Isto ocorreu, em primeiro lugar, devido a uma demanda clínica, em seguida, por conta de uma teoria psicanalítica que não se sustentatava frente aos fenômenos clínicos observados.

Até os últimos anos de sua vida, Reich constantemente estave preocupado com a eficácia de sua metodologia clínica, o que o fez chegar a muitos campos terapêuticos, não restrigindo-se à abordagem de síndromes “psicológicas”, mas também no tratamento de muitas doenças orgânicas. Reich nunca perdeu sua inquietação, sentindo-se sempre incomodado com os limites do que ele próprio fazia enquanto médico-psicanalista. Assim, apesar de isto ter o levado diferentes áreas do campo científico, enfatizou que por detrás de suas investigações sempre esteve presente uma linha-mestra, uma lógica interna que havia se iniciado desde suas contribuições iniciais à psicanálise até as suas contribuições no campo da orgonomia.


Por volta de 1925, Reich já não aceitava a diferenciação clássica entre as chamadas “neuroses atuais” (consequência de uma estase libidinal da vida atual do indivíduo) e as “psiconeuroses” (fruto de conflitos inconscientes infantis).

 

Enquanto a maior parte dos psicanalistas da época adentrava na exploração do conteúdo da fala de seus pacientes, Reich constatava que a origem do conflitos destes se manifestava somaticamente e na forma em que o paciente se apresentava na terapia, isto é, no aqui-e-agora.

 

Além disto, a partir de ampla casuística obtida de pacientes atendidos em Viena, Reich percebeu que em todas os diferentes casos de perturbação neurótica, havia uma pertubação mais ou menos grave da economia libidinal do indivíduo. Havia uma perturbação energética, de modo que o objetivo central do trabalho terapêutico “reichiano” passou a se tornar a dissolução da couraça, com a consequente elaboração de conflitos recalcados e a descarga de energia associada a eles.

 

Nesta abordagem, portanto, é possibilitado ao indivíduo, gradualmente, o restabelecimento do livre fluxo energético e uma maior capacidade de possibilidades de ação no mundo. 

 

O conceito de saúde na teoria reichiana descreve o sujeito capaz de vivenciar o prazer em diferentes situações da vida e de entrar em contato e de entrar em contato com o outro em suas relações diárias. Percependo-se a si mesmo, visceralmente, conseguimos perceber o outro e as diferentes situações da vida com maior facilidade. Este  o grau maior de saúde, segundo a perspectiva orgonômica.

 

O entendimento de cura, portanto, é baseado nessa capacidade, mas não se resume a um evento pontual na vida de um indivíduo. A cura, para Reich, é sempre entendida enquanto um processo inacabado. Em termos práticos, do que podemos ver na clínica, a cura ocorre em patamares cada vez maiores na vida de um indivíduo, com altos e baixos, mas que, concretamente, propicia uma melhor capacidade do indivíduo tanto de criar situações em sua vida onde possa experienciar este prazer, como também de solucionar os problemas que surgem em sua vida diária. A ideia de pulsação – conceito central na obra de Reich – é interessante para entender isto, pois traz à tona a noção de um processo sempre em continuidade, e não de uma etapa acabada, pontual e finalizada na vida de um indivíduo.

 

É difícil acreditar que, mesmo tendo-se passado quase um século, os insucessos obtidos com a técnica da psicanálise pura perduram e a ainda tenta-se justificá-los, na maior parte das vezes, através de conceitos que põem como causa de tal insucesso, as dificuldades do próprio paciente e não, como deveria ser, da ausência de uma teoria e terapêutica consistentes.  

 

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