Mal-estar e os sintomas ditos atuais,

medicalização contemporânea e teoria reichiana

 

Autor: Yuri C. Vilarinho.

Publicado primeiramente em: Psiquiatria Multinível

Demanda clínica contemporânea 

 

 

 

Embora a associação de Reich com o movimento alternativo (contracultura) tenha ficado gravada no imaginário popular, a maior parte das pessoas que busca terapia não sabe diferenciar as diferentes correntes psicoterápicas existentes. Os pacientes com problemas psicológicos comuns não sabem, comumente, o que é a terapia reichiana e nem quem foi Reich.


Embora a metodologia clínica reichiana possa abordar tanto o tratamento de desordens psicológicas e quadros psicopatológicos, como também certos quadros orgânicos (patologias hormonais, cardio-respiratórias, hipertensão, hipo e hipertireiodismo, asma, cefaleias, gastrites etc), a demanda é majoritariamente de pacientes com sintomas enquadrados no primeiro grupo (conflitos psicológicos). 

 

Há os pacientes, portanto, que procuram terapia procurando resolver conflitos que em determinado ponto de suas vidas ganharam tal dimensão e grau de complexidade, passando a exigir a ajuda e o acompanhamento de um profissional habilitado. Uma parte deste grupo já procurou modalidade de tratamento medicamentoso (psicofármacos), mas devido ao tratamento inadequado e à não dissolução das causas psicológicas e relacionais de seus conflitos, acabam por pesquisar e chegar ao consultório.


Outro grupo de pacientes apresenta aqueles que foram diagnosticados ou se auto-enquadraram em categorias psiquiátricas específicas, como a síndrome do pânico (aqui, por exemplo, é comum encontrarmos crianças que chegam majoritariamente com o diagóstico de "TDAH"). Por fim, os pacientes que vêm especificamente para tratar desordens enquadradas hoje na categoria de síndromes somatoformes, como por exemplo a chamada “fibromialgia” e a síndrome da fadiga crônica, bem como síndromes orgânicas cuja etiologia ainda é desconhecida pelo conhecimento médico convencional.

 

Mal-estar atual e a clínica reichiana

 

 

Quando se verifica os anais da história da medicina, ou seja, a descrição clínica registrada em jornais médicos especializados, ao longo das décadas do século XX, torna-se patente a ininterrupta presença de grupos sintomatológicos que se referem, não a sintomas de ordem psicológica, mas de ordem orgânica. No fim do século XIX, num período anterior a Freud, encontramos, por exemplo, uma miríade de patologias cuja fronteira não estava muito bem definida, estavam situadas entre o somático e o psíquico, como a neurastenia, a síndrome do coração irritável e a da espinha ferroviária, quadros estes, extensivamente estudados pelos principais neurologistas da época (Jean Martin-Charcot, por exemplo), e sobre os quais Freud se aprofundou e construiu os primeiros esboços do que viria a se constituir como psicanálise.

 

Freud, portanto, emerge de uma discussão acerca do estatuto de diferentes quadros patológicos, sobre os quais o movimento da Medicina se debruçou, desde o início do século XX até o seu fim. O que estava em questão era a busca por uma “prova cabal” da doença, pelo substrato orgânico (uma lesão) que justificasse o direito de estar doente por determinada doença. Este é o paradigma morgagniano ou da anátomo-patologia, cuja ideia central é a de que toda doença deve ter uma lesão. A lesão é, neste sentido, a sede da patologia e constitui, ainda, o cerne do estatuto ontológico da própria doença.


Portanto, sob esta perspectiva, o ineditismo atualmente associado aos processos de formação identitária na atualidade, os chamados processos de “cerebralização” ou de formação do chamado “sujeito cerebral”, revela-se totalmente anacrônico. A rigor, no fim do século XIX, a ideia de redução do sofrimento psíquico a lesões de ordem cerebral está em pleno vapor, tanto é que justificou os tratamentos recebidos e o “direito de estar doente” no início do século XX, inclusive nos casos de soldados traumatizados durante a 1º Guerra Mundial.

 

Por outro lado, é verdade que, com Freud, esta tradição da lesão sofre um abalo, já que ele, assim como todas as escolas de psicologia clínica posteriores, estava preocupado com a investigação da etiologia de diversos quadros patológicos. Mas isto não implicava que os pacientes do início do século XX chegassem aos consultórios relatando os seus conflitos em termos psicológicos. De fato, o que se encontra na literatura médica (inclusive psicanalítica) primária, em termos de descrição fenomenológica dos sintomas, são quadros muito semelhantes aos descritos na atualidade como “síndromes” do pânico, anorexias, bulimias etc.


O que se verifica hoje não é, portanto, uma mudança na modulação do modo com as síndromes estão sendo configuradas, mas, ao meu ver, o grau de implicação que as pessoas estão tendo em relação aos seus próprios sintomas. É aí que o processo de medicalização entra. Com a maciça impregnação de clichês médicos (em especial das neurociências e da psiquiatria biologicista) no imaginário popular, ocorre não somente a diminuição da procura dos sofrentes por um tratamento psicoterápico, como também, quando o paciente chega, enfim, ao consultório, que a própria descrição de seus sintomas seja afetada por estes discursos “cerebralistas” ou “medicalizantes”.


 

O surgimento da psicofarmacologia, da metade do século XX para cá, de fato, foi um dos fatores próprios de nossa época. Mas não existem “novas patologias”, mas, novas modalidades de relação com o sofrimento, este que é sempre psíquico e corporal. Se algo mudou, é que antes havia maior implicação do indivíduo com a sua própria história subjetiva, de forma que ele associasse o surgimento de sintomas típicos da ansiedade com a sua vida familiar e social. Hoje, por outro lado, tal implicação perde força.


Uma das causas deste processo é a hiper-valorização ou o renascimento do velho dogma da medicina, da ideia de que doença vem de fora, doença reduzida ao sintoma (localizado numa lesão, o cérebro, neste caso) e cujo tratamento deve ser pautado na eliminação do mesmo. Na base deste processo, como bem apontam diversos pensadores contemporâneos, está o que foi chamado por Guy Debord de espetacularização da sociedade, bem como ao que Lasch chamou de “cultura do narcisismo”, além do processo de escassez simbólica, isto é, um esmaecimento da capacidade de um indivíduo expressar-se em termos metafóricos e simbólicos (central para o tratamento analítico).

 

 

Estes fatores tomados em conjunto, e associados a outros (ex.: medicalização), propiciam um tipo de demanda clínica particular, cujos discursos são mais pautados nas descrições dos sintomas corporais do que na interioridade ou na história de vida do indivíduo.


Em contrapartida, vale destacar que a maior parte das pessoas que chega ao consultório possui, de certa forma, algum grau de implicação do seu sofrimento com a sua história de vida subjetiva. Se é verdade que parte delas é parte da massa que já passou no rolo compressor da medicalização, por outro lado, vê-se, num aparente paradoxo, quando se investiga o que elas pensam acerca de sua condição, que elas sabem que a raiz de seus problemas é de origem psíquica, oriunda de problemas familiares, de relacionamentos amorosos, de situações, em geral, conflituosas em sua vida. O uso do fármaco se justificaria, então, pela busca de alívio imediato de seus sintomas e pela facilidade que se tem no acesso a tais medicações. Ele – o uso – não exclui a possibilidade de busca por uma psicoterapia, o que evidencia a complexidade dos processos em questão.


É verdade também que boa parte dos pacientes que não chegam aos consultórios de psicoterapia não o fazem porque aderem hegemonicamente aos discursos medicalizantes. Na maior parte das vezes, o que está em questão é a possibilidade de acesso material aos caros tratamentos psicológicos. Sabem, na verdade, do quanto sua vida como um todo está implicada na etiologia de seus quadros patológicos, mas a possibilidade do tratamento medicamentoso e/ou cirúrgico oferece uma forma menos custosa e mais imediata para o alívio de seus sofrimentos. É muito provável, aliás, que hoje se tenha muito mais consciência dos aspectos psicológicos envolvidos na causação das doenças. O próprio termo ‘stress’, muito embora seja advindo da Fisiologia (isto é, se encaixe no quadro geral da biomedicina), é pragmaticamente utilizado para descrever determinados quadros cuja etiologia não é de ordem orgânica, mas psíquica, da mesma forma como as “nervosidades” do fim de século XIX e início do XX, embora fizessem menção ao sistema nervoso central, eram utilizadas até mesmo por muitos médicos para descrever quadros de “origem psicológica”.


Assim, a ideia de que existem “novas patologias” ou a de que as configurações da subjetividade contemporânea estão produzindo “novas formas de sofrimento” perde força também quando analisamos, mais uma vez, a historiografia médica ou os relatos clínicos de psicanalistas mais antigos. Vale citar, a título de exemplo, o estudo de Reich intitulado “O caráter impulsivo”, de 1925. Este estudo é fruto do tratamento de pacientes pobres, oriundos principalmente da classe operária austríaca e atendidos na clínica social psicanalítica organizada por Reich nesta época. O que se verificou nestes pacientes, sem dúvida, são quadros semelhantes aos que atualmente são designados como casos limítrofes ou limite, e transtornos narcísicos, cujas dificuldades centrais encontradas por Reich ao longo do tratamento, poderiam ser relacionadas hoje ao que é chamado de “escassez simbólica” e “ausência da figura paterna”.


Assim, é um equívoco, do ponto de vista reichiano, dizer que certas estruturas de caráter e determinadas modalidades de sofrimento são novas. Isto está, como dissemos, em consonância com o que a pesquisa historiográfica da medicina mostra. Pode ser dito ainda que esta questão, atualmente em voga nos meios acadêmicos, pode ser uma das consequências da falta de um estudo sério da obra reichiana. A rigor, do nosso ponto de vista, a ideia de um “mal-estar evidenciado no registro do corpo” faz pouco sentido, uma vez que as diferentes modalidades de sofrimento são sempre configuradas em estruturas corporais específicas. A contribuição de Reich mostra o equívoco teórico desta abordagem e as consequências clínicas nefastas de não se levar em conta a importância do aspecto econômico, libidinal, corporal, na edificação das diversas estruturas caracterológicas e, como consequência, das diferentes formas de abordá-las no tratamento analítico. É fundamental indicar, por fim, que curiosamente a leitura atenta das entrelinhas de dezenas de obras escritas contemporaneamente sobre o tema, apontam, muitas vezes pormenorizada e exatamente, para os questionamentos levantados por Reich há décadas e para as nefastas consequências clínicas e sociais do enrijecimento de certas tradições clínicas rígidas.

 

REICH, W. (2005) Éter, Deus e o Diabo: superposição cósmica. São Paulo: Martins Fontes. (Publicado originalmente em 1951)

 

REICH, W. (2004) Análise do Caráter. São Paulo: Martins Fontes. (Publicado originalmente em 1933).

 

REICH, W. (2004) Contato psíquico e corrente vegetativa. In: Análise do Caráter. São Paulo: Martins Fontes, pp. 267-328. (Publicado originalmente em 1936).

 

REICH, W. (2004) A cisão esquizofrênica. In: Análise do Caráter. São Paulo: Martins Fontes, pp. 367-460. (Escrito em 1948).

 

REICH, W. (1967) Reich speaks of Freud. New York: Farrar, Strauss & Giroux.

 

 “Mal-estar na atualidade”, de J. Birman, “A Sociedade do Espetáculo”, G. Debord e “Cultura do Narcisismo”, C. Lasch.